Quem mata no Brasil? O que os números do Anuário de Segurança Pública de 2026 revelam sobre violência letal e gênero
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Tokio
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O anuário brasileiro de Segurança Pública foi criado por pesquisadores, gestores e policiais num cenário de "escassez de dados, fragmentação institucional e silêncio público" sobre segurança — o Anuário nasceu para preencher essa lacuna com produção de conhecimento independente e qualificado.
A publicação consolidou-se como uma das principais referências para compreender a violência e a segurança pública no Brasil, reunindo e sistematizando dados provenientes de diferentes fontes e instituições. Seu objetivo é contribuir para que o debate público sobre segurança seja baseado em evidências, permitindo identificar tendências, comparar indicadores e compreender a dimensão dos problemas enfrentados pelo país.
O Anuário representa uma tentativa de transformar dados dispersos em conhecimento público, oferecendo subsídios para pesquisadores, jornalistas, gestores, profissionais de segurança e para a própria sociedade avaliarem políticas públicas e cobrarem resultados das instituições responsáveis pela segurança.
Apesar de toda essa apresentação o anuário não é imparcial em nenhum sentido, oculta dados quando quer e mostra quando beneficia os interesses do editorial, além disso os dados usados, as fontes são incompletas (as fontes de dados utilizadas são populadas manualmente em sua maioria e faltam campos para identificar critérios de busca) em vários sentidos, por conta disso e talvez indiretamente é um documento enviesado e não apolítico.
Essa é uma edição comemorativa de 20 anos, iremos usar os dados brutos, os poucos que eles deixaram expostos para tentar compreender a violência no Brasil.
Regiões com maior número de MVI
Para começar, vamos pelas regiões com mais mortes violentas intencionais (MVI) no Brasil.
Em números absolutos os estados com o maior número de assassinatos são: Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e Pernambuco. Nessa ordem, porém as coisas mudam quando se fala de taxa de mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes onde Amapá agora toma a frente, seguido por Bahia, Ceará, Alagoas e Pernambuco, a taxa por habitante mostra a letalidade e deve ser usada aqui por conta da quantidade populacional de cada estado. Destaque: o Amapá lidera em taxa (42,5) apesar de ter poucas vítimas em número absoluto (343) — é um estado pequeno em população. Já São Paulo, apesar do 3º maior número absoluto de vítimas (3.615), tem uma das menores taxas do país (7,8), porque tem a maior população do Brasil.
Perceba que Ceara, Pernambuco e Bahia nos dois rankings. São os estados com maior problema de segurança pública em alguns casos em volume e em muitos outros em intensidade relativa. A região nordeste é predominante pelo menos em violência.
Em contra-partida os estados com menos problemas de segurança pública são Santa Catarina, São Paulo, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
É importante frisar que o número de MVI no Brasil tem caído em uma taxa de 8.2% se comparado com o ano registrado anterior (2024), o número total de mortes violentas intencionais no Brasil, segundo o Anuário é de 40.775, isso contabiliza as mortes por assassinato registradas (homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes por intervenção policial).
Essa redução não iniciou no ano de 2024, ela aconteceu em 2018 quando eleito Bolsonaro e "facilitado" a aquisição de armas pela população.
A redução de MVI seguiu reduzindo até 2020 onde teve uma alta de 5%. No ano seguinte voltou a cair.
"Os números passam a cair a partir de 2018, com uma única interrupção da tendência de queda no ano de 2020, quando os números crescem em relação ao ano anterior" (47.765 → 50.448, provavelmente efeito pandemia) (p. 35:1).
2025 fechou com a menor taxa desde 2012 (19.1 casos por 100 mil habitantes)
Os números subiram de 2012 a 2017, atingindo o pico em 2017 (64.079 casos / taxa 31,2), queda de 8,2% sobre 2024 e de 31% sobre 2012.
Posse de arma de fogo
É importante frisar que a partir de 2018 o número de armas [registradas] nas mãos da população brasileira saltou 236.1%. 313 armas de fogo por 100 mil habitantes para 1.017 armas por 100 mil habitantes e isso pode ter ajudado a impedir crimes de MVI.
## Mortes violentas cometidas por policiais
O documento também relata o número de mortes cometidas por policiais, porém informa que essas mortes são decorrentes de intervenção policial (MDIP) (em serviço ou fora de serviço). Os dados são registrados e informados pela própria polícia, ou seja, fonte primária é a própria estrutura policial/estatal que pode ou não sub-notificar. O número total é de 6.602 mortes no ano de 2025, 18 pessoas por dia, 3.1 por 100 mil habitantes. No histórico existe uma diferença de 55.7% do ano de 2016 a 2025 o equivalente a um GAGR de +5% ao ano. Ou seja, mesmo com altos e baixos no meio do período (inclusive quedas em 2023-2024), a taxa média de crescimento anual composto da letalidade policial foi de aproximadamente 5% ao ano entre 2016 e 2025.
As MDIP representam 16,2% do total de MVI no Brasil (como consta no texto do anuário, p. 33). Para se ter ideia de quanto esse número é grande, o número de mortes de mulheres registradas representa 3.85% do total das MVI e é a questão mais debatida nos telejornais e blogs brasileiros. E precisamos salientar que as mortes de mulheres são os registros mais bem documentados nesses boletins, diferente dos outros que tem sub-notificação. Estou enfatizando isso e deixando claro que não é o simples fato de um cidadão se tornar policial o credencia para matar, inclusive, não morre só vagabundo nessa conta, atritos familiares, brigas por questões amorosas, negócios, brigas de transito, álcool e muitas outras situações podem ser motivos de morte violenta cometida por policial, não existem só traficantes e policiais no mundo.
O gráfico abaixo mostra os estados onde há mais mortes causadas por policiais.
Perceba que as regiões mais problemática são as do Norte e Nordeste do país.
[...] a maior parte das pessoas mortas em intervenções policiais é do sexo masculino: eles representam 97% das vítimas. Em termos relativos, a taxa de letalidade entre homens foi de 6,19 mortes para cada 100 mil habitantes em 2025, um aumento de 6% em relação a 2024 [...]. Entre as mulheres, a taxa foi de 0,04 em 2025, valor que permanece no mesmo patamar registrado em 2024. (p. 78:1)
Em falar em feminicídio
0.18 mulheres por hora morrem no Brasil por feminicídio.
Em números exatos no ano de 2025 morreram 1.571 mulheres, ou seja, 4 mulheres por dia, 1.4 mulheres para cada 100 mil mulheres (uma massa com aproximadamente 109 milhões de mulheres, se considerar toda a massa de habitantes do Brasil, aproximadamente 213 milhões de pessoas, na taxa de 100 mil habitantes o valor seria 0.74).
As falsas notificações de morte de mulheres exclusivamente por serem mulheres cresceram enquanto a morte de homicídios de mulheres estão caindo ano após ano.
Por não ter como dizer de outra forma senão a partir da palavra de alguém, inclusive do autor, quase todo crime contra mulher se torna feminicídio. Perceba que no gráfico acima 2016 temos um total de 5.174 mulheres mortas enquanto que em 2025 esse número é de 5.110 mulheres mortas, perceba que o número caiu, porém está acontecendo uma troca do tipo.
Além disso existe uma falsa ideia de que todo feminicídio é causado por homens, o que não é verdade, feminicídio pode acontecer em casos de relação homossexual, relação de mãe e filha, relação de irmã e irmã.
Feminicídio é um termo criado pela escritora feminista Diana Russell em 1970 para definir o assassinato de mulheres motivado pelo gênero. Existem inúmeros outros escritores que diriam que não existe uma relação causal direta entre a morte de mulher e a questão de gênero e isso faz sentido, vejamos porque: uma briga de trânsito, uma questão amorosa, uma relação de negócios e um caso de abuso de álcool, imagine que ocorreu uma morte violenta, mas perceba que nenhum daqueles casos a mulher é morta por conta de ser mulher, no máximo por ser mais fraca que o assassino(a), pois é evidente que quando alguém é morto em uma briga de trânsito é por conta dos ânimos alterados e agressões verbais, na questão amorosa é por conta do ciúmes, em negócios talvez seja por conta do dinheiro.
Em nossa sociedade não temos um movimento que queima mulheres, não vemos em nenhum canal de informação homens se unindo pra assassinar mulheres por serem mulheres.
Misandria, quando homens são mortos exclusivamente por serem homens
4 homens por hora morrem no Brasil por morte violenta intencional!
Para começar, o anuário não tem um gráfico exclusivo para MVI, tão pouco uma sessão exclusiva para falar da morte violeta de homens, sabemos das mortes de homens por conta de um recorte por sexo que aparece como percentual dentro da distribuição geral de MVI. No Brasil 90.8% de todas as mortes violentas tem como vítimas homens. Leia: Das 40.775, 37.024 são homens ou seja, 101 homens por dia, 1 a cada 14 minutos no Brasil.
Apesar do termo feminicídio não se tratar exclusivamente de mulheres mortas por homens, mas por mulheres mortas por serem mulheres poderíamos tentar chegar ao caso de homens mortos por mulheres.
O Anuário complica os cálculos, pois não informa com precisão os casos de homens mortos por MVI, além disso é mais comum uma mulher mandar matar, matar junto do que ela mesma matar. Com os poucos dados que temos é possível chegar a um resultado, isso por conta dos casos com autoria identificada na sessão de feminicídio.
Sabemos pelo relatório que 37.024 homens são mortos no Brasil por ano por MVI, desses 37 mil e 24 homens 33.731 foram mortos por outros homens e 1.777 foram mortos por mulheres sozinhas (4.8%) e mais 1.481 por mulheres com outras mulheres ou com homens (4%). Calculando todos os MVI e fazendo o recorte sob as porcentagens indicadas no gráfico das autorias identificadas chegamos a esse resultado.
Fazendo o mesmo recorte: 3.751 mulheres são mortas por MVI, dessas 1.571 estão nos registros como sendo morte pelo simples fato de ser mulher, dessas 1.514 mulheres foram mortas por homens.
Temos a seguinte conclusão, mulheres mataram 17% mais que homens.

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